Desejo de Conhecer segundo Aristóteles
(Texto oferecido na aula de Filosofia da Ciência PUC-Rio – Profa. Rosana Suarez)
22/03/2002
Todos os homens têm, por natureza, desejo de conhecer: uma prova disso é o prazer das sensações, pois, fora até de sua utilidade, elas nos agradam por si mesmas, as visuais mais do que todas. Realmente, não só para orientar a ação, mas até quando não é o caso, preferimos a vista às demais. A razão é que, de todos os sentidos, ela é o que melhor nos faz conhecer as coisas, e mais detalhadamente.
Seguramente, por natureza, os animais são dotadas de sensação (aisthesis). Mas, nuns, a sensação não produz a memória (mnemósine), enquanto que, noutros, sim. Por isso, os capazes de recordar são mais inteligentes e mais aptos para aprender do que os demais. Incapazes de aprender, embora inteligentes, são todos os animais que não podem captar os sons, como por exemplo, as abelhas. Capazes de aprender, pelo contrário, são todos os seres que, além da memória, são providos também da audição. Os outros animais vivem de imagens e de recordações, possuindo muito pouco de experiência (empeiria). Mas a espécie humana vive também a arte (techne) e de raciocínios.
A experiência deriva, no homem, da memória: pois as recordações repetidas da mesma coisa produzem o efeito de uma única experiência, e a experiência se assemelha muito à ciência e à arte. Na realidade, porém, a ciência e a arte provêm da experiência: a experiência (afirma Pólo) criou a arte, e a inexperiência, o acaso.
A arte surge quando, de um complexo de noções experimentadas, se extrai um único juízo universal dos casos semelhantes. Realmente, Ter a noção de que um determinado remédio curou Cálias quando atingido por tal doença, e curou Sócrates também, além dos outros, é um caso d experiência. Mas julgar que tenha curado todos os indivíduos da mesma espécie atingidos por tal doença (...) isso é arte (...).
Julgamos que há mais saber e conhecimento na arte do que na experiência e consideramos os homens de arte mais sábios que os empíricos; isto porque os empíricos não conhecem a causa, e os outros, sim. Com efeito, os empíricos sabem o “quê” , mas não o “porquê” e a causa.
(...) Os mestres em uma determinada função são mais sábios, não por terem aptidão prática, mas pelo fato de possuírem a teoria e conhecerem as causas. Em geral, a capacidade de ensinar é indício de saber, por isso, consideramos que há mais ciência na arte do que na experiência, porque os homens de arte (techne) podem ensinar, e os outros não.
Não julgamos que qualquer das sensações constitua ciência, embora constituam, sem dúvida, os conhecimentos mais seguros dos casos singulares. Mas não dizem o “porquê” de alguma coisa, por exemplo, que o fogo é quente; dizem apenas que é quente.
Entende-se, portanto, que quem primeiro atingiu uma arte qualquer, para além das sensações comuns, excitasse a admiração dos homens, não somente pela utilidade da sua descoberta, mas por ser sábio e superior aos outros. E com o multiplicar-se das artes, umas para suprir necessidades, outras visando à pura satisfação, os inventores destas últimas foram considerados mais sábios que os das outras, pois as suas ciências não se subordinavam ao útil.
Constituídas todas as ciências deste gênero, descobriram-se ainda outras que não visavam nem ao prazer nem à necessidade, e primeiramente naquelas regiões onde os homens viviam no ócio. Foi assim que, em várias partes do Egito, se organizaram pela primeira vez as artes dos matemáticos, porque se consentiu que a casta sacerdotal vivesse no ócio.
Já assinalamos, na Ética, a diferença entre a arte (techne), a ciência (episteme) e outras disciplinas do mesmo gênero. O motivo do nosso atual estudo é a chamada Filosofia, por todos concebida como tendo por objeto as causas primeiras e os princípios. De modo, que, recapitulando: se o empírico parece ser mais sábio do que o ente que só possui sensações. O homem de arte mais do que os empíricos, o mestre-de-obras mais do que o operário, e as ciências teóricas mais do que as práticas, é evidente que a suprema sabedoria seja a ciência de certas causas e certos princípios.
ARISTÓTELES. Metafísica.