Diário
1º de maio de 2001- 11 horas da manhã. Abro a porta do quarto. Espreguiço-me. Ainda não me recuperei do sono. Os olhos embaçados, a boca amarga, os movimentos lentos, o pensamento entorpecido. Entre a porta do quarto e a cozinha, onde o gole do café me trará de volta à vida, vislumbro as opções que o feriado me permite: o telefone – possibilidade de jogar conversa fora com gente que a semana de trabalho deixou fora do circuito; o sofá de almofadas macias chamando de volta a preguiça; o jornal desarrumado no chão me mostrando que o dia está às minhas ordens, ansiando por ser gozado sem pressa, sem culpa, sem agenda; e, principalmente, o dia lindo – convite para um passeio na Lagoa, da janela vejo o Corcovado, o redentor, que lindo, quero a vida sempre assim...
Na volta da cozinha, a xícara de café me garante discernir que minha liberdade será assim exercida: instalar-me sonolenta entre as almofadas macias do sofá, com o telefone numa das mãos e na outra o jornal, a me acordar para que eu possa, enfim, encontrar as carícias suaves do sol de maio.
Entre a cozinha e o sofá me distraio e o olhar desavisado encontra, por acaso?, uma “Felicidade Clandestina”. Clarice adia meus planos. Ainda de pé, escolho uma página. Dou um gole no café. Outra página, desprezo o telefone, sento-me, empurrando com o pé o jornal. Mais uma página, e outra, e outra, e outra...e o passeio fica definitivamente adiado. Clarice colhe o meu dia. Clarice me colhe e acolhe. Clandestinamente, Clarice me escolhe.