" O Agá em Fuga" é a primeira a ser publicada no Mosaico como fruto deste maravilhoso intercâmbio que está sendo traçado entre a Itália e o Brasil.
Como vocês sabem, o Mosaico tem um correspondente italiano, o Mario Varrica, uma pessoa muito especial. A cada mês, ele tem enviado para a nossa sede livros em italiano de autores como Italo Calvino, Antonio Gramsci, Primo Levi, Bobby Sands e, para a literatura infanto-juvenil, livros de Giani Rodari!
Este conto, " O Agá em Fuga", pode ser trabalhado com as crianças brasileiras, pois traz em si questões para refletir extremamente válidas!
DICA: Utilize as palavras em italiano grifadas para comparar como elas são usadas no Brasil. As crianças ficam empolgadas ao perceber que guitarra se escreve CHITARRA ou que chave se escreve CHIAVE!
Não deixe de contar para a gente como foi na sua escola!
O Agá em Fuga
Era uma vez um Agá
(Giani Rodari)
Tradução: Ilana Eleá Santiago
Enviado por: Mario Varrica
Era um pobre Agá, valia um Agá, e sabia disto. Por isso, não inflava-se com arrogância, ficava ao seu lugar e suportava com paciência as gozações de suas companheiras. Elas diziam-lhe:
E então, seria você uma letra do alfabeto? Com esta aparência? Você sabe ou não sabe que ninguém te pronuncia?
Ele sabia, ele sabia. Mas sabia também que no exterior existem países e línguas nos quais o Agá faz a sua presença.
“Quero ir para Alemanha – pensava o Agá, quando estava triste com a solidão. Me disseram que lá os Agás são importantíssimos.”
Um dia fizeram com que ela se aborrecesse de verdade. E ela, sem dizer nem um nem dois, colocou as suas poucas coisas em um pacote e se foi em viagem pedindo carona.
Abra-te céus! Tudo o que aconteceu de um momento para outro, por causa daquela fuga, não se pode nem menos descrever. As igrejas (chiesa), abandonadas sem o Agá, caíam como se estivessem sobre um bombardeio. Os quiosques (chioschi), transformaram-se a golpe e mais ligeiros, voaram pelos ares distribuindo jornais, cervejas e suquinhos de laranja, numa rede que arrastava tudo em todo o lugar.
Ainda por cima, do céu cairam abaixo os querubins (cherubini): levar o Agá era como como se os levassem junto! As chaves (chiavi) não abriam mais, e quem estivesse fora de casa deveria conformar-se em dormir à céu aberto.
As guitarras (chitarre) perderam todas as suas cordas e tocavam menos que as caçarolas (panela de metal para cozer alimentos).
Não falo a vocês sobre o Chianti (tipo de vinho), que sem o Agá, que sabor horrível. Ainda era impossível bebê-lo, porque os copos (bicchieri) transformaram-se em (biccieri) e (quebravam) em mil pedaços.
Meu tio estava prendendo um prego (chiodo) no muro, quando a Agá desapareceu: o (ciodo) se desmanchou sobre o martelo pior que manteiga.
Uma manhã depois, dos Alpes ao Mar Jônio, nenhum galo sequer fez seu quiquiriqui (chichirichi), faziam todos cicirici e parecia que estavam espirrando. Estavam temendo uma epidemia.
Começou uma grande caça ao homem, quero dizer, ao Agá. Os postos de fronteira foram advertidos de duplicar a vigilância. O Agá foi descoberto nas vizinhanças de Brenero, enquanto tentava entrar clandestinamente na Áustria, porque não tinha passaporte. Mas deveriam pegá-la de joelhos: Fique aqui, não faça cara de quem está sofrendo uma injustiça! Sem você, não poderemos pronunciar bem nem menos o nome de Dante Alighieri! Escute, tem uma pedido dos habitantes de Chiavari, que te oferecem uma casa ao mar. E esta é uma carta da estação principal de Chiusi-Chianciano, que sem o Agá se transformaria em Ciusi Cianciano: seria uma degradação.
O Agá era de bom coração, já havia dito a vocês. E voltou, para grande alívio do verbo chiachierare (conversar) e do pronome checchessia (qualquer coisa). Mas é bom que seja tratado com respeito, senão ele aprontará de novo.
Para mim, que sou míope, seria gravíssimo: com os óculos (occhiali) sem o agá, não posso ver daqui a ali.
Giani Rodari