Professor-Aluno:
a relação de transferência
que faz a diferença
Por: Ilana Eleá Santiago
Trabalho organizado para a disciplina:
Psicologia da Educação II
Profa. Ilza Altran
(
Graduação em Pedagogia, PUC-Rio)
“Os educadores, investidos da relação afetiva primitivamente dirigida ao pai, se beneficiarão da influência que esse último exercia sobre a criança.”
Sigmund Freud
A psicanálise muito tem a contribuir para a formação de educadores, já que estes, preocupados com a construção do conhecimento do aluno, devem atentar-se para os aspectos motivadores do despertar da curiosidade do aluno, processo no qual a representação que o professor engendra constitui peso considerável.
Quem não se recorda de alguém já ter dito o quanto determinado professor foi capaz de influenciar consideravelmente na opinião, motivação e relação do aluno em relação a uma disciplina específica? Este fato recorrente encontra na psicanálise fundamentações teóricas para sua sustentação: as transferências, que seriam “reedições dos impulsos e fantasias despertadas (...) que trazem como característica a substituição de uma pessoa anterior pela pessoa do médico (Freud, 1901)” (ou professor) . Como o próprio Freud cita (p.286): “é difícil dizer se o que exerceu mais influência sobre nós e teve maior importância foi a nossa preocupação com as ciências que nos eram ensinadas, ou pela personalidade de nossos mestres.”
Segundo Freud, “os pais constituem para a criança pequena a autoridade única e a fonte de todos os conhecimentos” (p. 243). Eles são os primeiros símbolos para a criança, os quais serão contestados somente mais tarde. A escola possui papel fundamental na descontinuidade deste pensamento, quando distingue o conhecimento que o aluno trás de casa com a forma pela qual ele é tratado pelo professor. É de praxe encontrar alunos fazendo suas tarefas de casa e, frente às intervenções sugeridas pelos pais, tenham se retraído veementemente, alegando que a forma proposta por eles não é “do jeito da professora, está errado!”
Tal fato é um exemplo de transferência: os pais, em primeira instância tidos como mantenedores de todo o conhecimento, têm suas posições deslocadas para os professores, que devem por isto estar ciente deste processo psicanalítico, para que possam lidar da melhor forma possível a favorecer a construção do conhecimento. Isto porque: “somente alguém que possa sondar as mentes das crianças será capaz de educá-las” (Freud, p.224).
O conceito de inconsciente descoberto por Freud faz parte dos três severos golpes sofridos pela humanidade e será através dele que poderemos entender todo o processo de transferência. A psicanálise explica que as pessoas com que a criança passa a conviver fora do círculo abrangendo pai, mãe, babá, irmão ou irmã passarão a exercer um papel de figuras substitutas desses primeiros objetos de seus sentimentos, tornando-se “imagos” (imagens) destes.
A transferência é uma manifestação inconsciente (Kupfer, p.88) e como tal, pode nos deixar em armadilhas tais como nos atos falhos, pois através da transferência podemos nos inclinar ou rejeitar pessoas que estão à nossa volta sem aparentemente sabermos o por quê.
Dessa forma, sentimentos de simpatia ou rejeição gratuitos que tanto o professor pode sentir em relação a algum aluno, assim como algum aluno em relação ao professor, podem ter origem nesta premissa, já que “os relacionamentos posteriores são obrigados a arcar com uma espécie de herança emocional(...) Todas as escolhas posteriores de amizade e de amor seguem a base das lembranças deixadas por esses primeiros protótipos” (Freud, p. 287)
O professor entra em cena geralmente na segunda metade da infância, momento no qual a criança está começando a relativizar a alta opinião original que tinha pelo seu pai, o que torna-os ocupadores de da posição como “pais substitutos”. Tanto é verdade que, transferem-se para estes o respeito e as expectativas ligadas ao ideário do pai da infância. Freud, em seu livro “Psicologia do colegial” aborda esta temática: professores como herdeiros de inclinações carinhosas ou agressivas antes dirigidas aos pais.
Não é ao acaso que as classes que atendem ao público infantil chamam-se comumente de “maternal”, ou seja, que relaciona-se ao “amor materno”, no intuito de criar uma identificação nas crianças com o ideário, com o imagos de sua família.
Porém, após o primeiro segmento do ensino fundamental, percebe-se uma cisão na relação professor-aluno que pode ser prejudicial para o desenvolvimento afeto-cognitivo dos alunos, por sofrerem uma mudança tão brusca no aspecto relacional com esses objetos transferenciais de suas expectativas, que são os professores.
As turmas, antes sob regência de apenas uma professora, passa a possuir tantos professores quanto o número de disciplinas oferecidas e uma maior distância e frieza nos aspectos afetivos são valorizadas, em detrimento do conhecimento a ser transmitido por si. O professor não pode perder de vista que: “A transferência, construída na relação professor-aluno, pode incentivar o processo de aprendizagem dos alunos” (Kupfer, p.85).
O professor deve assim, atentar-se para estimular situações de envolvimento com os alunos, de aproximação, de contato, além de dedicar todo um cuidado à sua apresentação. Ele não deve considerar-se como sujeito petrificado com a simples tarefa de transmitir conhecimentos para alunos-objetos, podendo desprover-se de quaisquer responsabilidades além do conteúdo. Os alunos que ali estão em suas aulas trazem mundos dentro de si, trazem seus históricos inconscientes, impulsos e forças reguladoras, além de forças identificatórias desejosas por encontrar referenciais a construir. São sujeitos e assim devem ser considerados, respeitados e ouvidos, além de alimentados por imagens positivas.
Freud nos mostra que um professor pode ser ouvido quando está revestido por seu aluno de uma importância especial. (Kupfer, p.85) E acrescento: este será ainda mais especial quanto mais acreditar ser o seu aluno também especial. Graças a essa importância bilateral de identificações, o mestre passa a ter em mãos um poder de influência sobre o aluno e vice-versa.
O educador não pode perder de vista este embasamento que a psicanálise oferece, para que possa estar cada vez mais capacitado e apto a agir da melhor maneira em nome do alcance de seus objetivos: favorecer a construção do conhecimento, da cidadania, da ética e a da arte em seus alunos.
Bibliografia
FIORI, W. da Rocha. Modelo psicanalítico. IN: Teorias do desenvolvimento, conceitos fundamentais. Vol.1. SP: Ed. EPU, 1981, p.11-50.
FREUD, S. Obras Completas. Ed. Imago: 1976.
FREUD, S. Análise Fragmentária de uma histeria. 1901, v.1.
KUPFER, C. Freud e a Educação, o mestre do impossível. SP: Ed.Scipione, 2000.