Fazendo a cabeça das pessoas

Dora Incontri

 

 

Não é apenas de produtos que os jornais e as televisões podem fazer publicidade. Também se faz propaganda de idéias. É o que se chama de propaganda ideológica. Aí a coisa é ainda mais complicada. Isso porque a publicidade é sempre clara. Isto é, você sabe que está vendo uma propaganda. Já a propaganda de idéias muitas vezes aparece disfarçada. As pessoas não percebem que estão sendo doutrinadas.

         Um grande exemplo de propaganda ideológica aconteceu durante o período nazista, na Alemanha de Hitler, nas décadas de 30 e 40 deste século. O nazismo tinha algumas idéias básicas - por sinal, da pior espécie – como a perseguição aos judeus; um patriotismo exagerado, que fazia os alemães desprezarem outros povos a ponto de querer domina-los; fanatismo pelo ditador Hitler, a quem o povo devia adorar quase como a um deus. Durante o seu governo, os meios de comunicação: jornais, cinemas, rádios (havia também umas poucas emissoras de tv) foram usados diabolicamente para doutrinar o povo alemão. O problema é que a doutrinação é feita na base da distorção dos fatos. Contam-se histórias ou inteiramente mentirosas ou meio verdadeiras, para convencer as pessoas de alguma idéia. Por outro lado, informações importantes são escondidas.Durante a Segunda Guerra Mundial, na Alemanha, o povo não sabia o que acontecia de fato nos campos de concentração. Talvez, se soubessem toda a verdade, tivessem se manifestado contra. Como no Brasil, no tempo dos militares, o povo também não sabia das torturas que aconteciam nas prisões. Isso não quer dizer quer dizer que os povos não tenham culpa nenhuma do que acontece. Tem sim! Porque, muitas vezes, apóiam um governo ditador, achando que, com a ditadura, o país fica com mais ordem! Mas que ordem é essa, com tortura e morte?

         É por isso que o público deve sempre estar alerta, de olhos e ouvidos muito abertos, questionando tudo o que entra na sua cabeça. Mas aí é que está...A característica principal da propaganda é não se dirigir ao raciocínio das pessoas. Se fosse dirigido à razão, seria mais fácil não nos deixarmos influenciar por ela. A razão discute, pesa o que é vantajoso e o que não é. Mas não! A publicidade se dirige à parte emocional do ser humano, ao seu mundo de sensações e de fantasias.

         É o caso, por exemplo, de uma propagandas de cigarros: mulheres e homens bonitos, carros velozes, cavalos, aviões, asas-deltas, luxo, riqueza, liberdade...Emoção, aventura, beleza, dinheiro – tudo com que o ser humano geralmente sonha, tudo o que ele gostaria de ser ou ter. A propaganda liga toda todas essas sensações de sonho com a marca do cigarro. Isso é uma mentira deslavada! Se você fuma o cigarro anunciado, você não fica nem rico, nem bonito, nem arranja uma boa aventura. O máximo que você pode conseguir é um belo câncer no pulmão.

         É assim, mais ou menos, com todos os outros produtos. Um refrigerante pode ser refrescante e matar a sede como diz a propaganda, mas não é tão saudável quanto anunciam. Refrigerantes engordam e causam cáries.

         Também na propaganda das idéias, usa-se esse tipo de ligação mentirosa. Os políticos, em véspera de eleições, beijam as criancinhas, para fazer propaganda de si mesmos. É geral a idéia de que alguém que gosta de crianças só pode ser um bom sujeito. Então, mesmo que não gostem, políticos do mundo inteiro beijam criancinhas, para parecerem simpáticos. Mas é obvio que beijar criancinhas não tem nada que ver com a competência política. No entanto, o gesto pode influenciar os eleitores, sem que eles percebam.

 

         Os meios de comunicação não possuem apenas interesses comerciais, mas também ideológicos. Aí chegamos a um ponto curioso. Numa democracia, onde não existe um governo impondo uma propaganda ideológica única, existem vários grupos fazendo propagandas ideológicas diferentes. Então, cada jornal pode ser uma idéia diferente para  passar para os leitores. Isso também acontece com as emissoras de radio e televisão.

         Nos jornais escritos, essa linha de idéias é passada  mais claramente nos chamados editoriais. Trata-se de um artigo; sem assinatura de ninguém, onde aparece o pensamento do jornal a respeito das noticias dadas. Mas não é só aí não. Mesmo na notícia, o jornal e a televisão podem estar passando disfarçadamente uma idéia. Por exemplo, suponha uma eleição para presidente. Digamos que uma rede de televisão esteja dando apoio a um certo candidato, embora não diga isso abertamente. Os jornalistas não dirão: “votem em fulano!” Isso ficaria muito feio, pois todo telejornal, pelo menos em teoria, devia ser imparcial. Então o que fará a televisão? Ela pode usar pequenos truques: quando, por exemplo, estiver contando para os telespectadores o dia dos candidatos a presidente, ela pode falar durante 3 minutos do candidato que apóia e apenas 1 minuto dos outros candidatos. E mais: pode focalizar o candidato de sua preferência quando ele está falando uma frase bem interessante e, em oposição, omitir os pontos positivos dos outros candidatos, mostrando-os só nos momentos em que eles estejam dizendo alguma bobagem. E assim por diante...Dá pra perceber que, sem contar nenhuma mentira, ela puxa a brasa pra sua sardinha?

         No jornal acontece a mesma coisa. Quando você conta uma noticia, ela pode ser escrita de varias maneiras, de tal modo que, nas entrelinhas, você está passando a sua idéia a respeito dos assuntos. Por esse motivo, se você quiser saber toda a verdade a respeito de um fato, é bom ler dois ou três jornais diferentes e assistir a duas ou três estações de televisão. Isso porque cada um vai contar o mesmo fato de um jeito. Ás vezes, as diferenças são muito sutis, se modo que o púlico não percebe logo de cara que o jornal está tomando partido.

         Agora, vem a pergunta: mas existe algum meio de comunicação que não tome partido? Não existe. Cada um tem um jeito de ver o mundo, de ver os fatos, tem algum interesse ou alguma opinião para defender seus interesses financeiros e ideológicos. Também por isso é bom que haja liberdade de expressão; se há meios de comunicação de todos os tipos de idéias, o público pode tirar uma média e escolher a que mais lhe agrada.

 

                     

 

 

Bibliografia:

 

INCONTRI, Dora. Estação Terra: Comunicação no tempo e no espaço. São Paulo.   Moderna, 1991. p.64-5, 68-9.

 

 

 

Enviado por Talita – aluna da 7º. Série do Grupo Faria Brito – Unidade Recreio RJ