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Conceitução Aristotélica de Tecnologia
(Texto distribuído pela Prof. Rosana Suarez – Filosofia da Ciência da PUC-Rio)
A palavra “tecnologia” deriva do substantivo grego techne, que significa arte ou habilidade. Esta derivação diz-nos que a tecnologia é essencialmente uma atividade prática, que consiste mais em alterar do que em compreender o mundo. Onde a ciência persegue a verdade, a tecnologia prega a eficiência. Enquanto a ciência procura as leis a que a natureza obedece, a tecnologia utiliza essas formulações para criar implementos e aparelhos que façam a natureza a obedecer o homem. Tal como a ciência, entretanto, a tecnologia é uma entidade imensamente complexa que consiste em fenômenos de muitas espécies – agentes instituições, produtos, conhecimentos, técnicas etc.
O principal objetivo da tecnologia é aumentar a eficiência da atividade humana em todas as esferas, incluindo a da produção. A tecnologia reproduz os mais variados objetos para satisfazer uma gama ainda mais ampla de necessidades e aperfeiçoa determinados tipos de objetos para satisfazer mais completamente necessidades específicas. A tecnologia aperfeiçoa os objetos tornando-os, por exemplo, mais duradouros, ou mais confiáveis, ou mais sensíveis, ou mais rápidos em seu desempenho, ou uma combinação de tudo isso, dependendo da função do objeto. (...) A tecnologia também melhora a produção reduzindo o tempo ou o custo da fabricação de um certo objeto (...).
O trabalho tecnológico é intencional e racional. O tecnólogo visualiza um objetivo, traça um plano para tingi-lo e emprega ferramentas, materiais e técnicas para executar o plano. O seu objetivo imediato é fazer algo ou ocasionar algo; a sua meta a longo prazo é concretizar algum novo estado de coisas através do que ele fez ou ocasionou. Quando um engenheiro constrói uma ponte, ele forma uma idéia num plano ou projeto detalhado e finalmente, supervisiona a construção da ponte de acordo com o plano. A sua meta imediata é construir a ponte. O seu objetivo a longo prazo é ocasionar ou tornar possível um certo fluxo de tráfego pela ponte. (...)
Uma pessoa só pode alcançar os resultados tecnológicos mediante um planejamento eficiente e uso cuidadoso de ferramentas. A ação tecnológica envolve raciocínio teórico e prático, conhecimentos sistemáticos e especialização. Isto já foi reconhecido na Antigüidade Clássica. Aristóteles definiu techne como sendo “idêntico a um estado de capacidade para fazer, envolvendo um verdadeiro exercício de raciocínio” . Na Idade Média, Hugo de Saint-Vitor chamou à tecnologia “ uma forma de conhecimento que deve abranger os métodos de produção de todas as coisas”.
Em certos aspectos, o pensamento tecnológico assemelha-se ao pensamento concreto e visual das artes. Essa semelhança foi assinalada por Aristóteles. Arte e tecnologia, disse ele, criam coisas que não existiam antes, ao passo que a Ciência e a Filosofia se ocupam de coisas que existem natural ou necessariamente. O pensamento tecnológico também se assemelha ao raciocínio prático do senso comum, como foi sublinhado pelo historiador da ciência ª Koyré: “O pensamento técnico do senso comum não depende do pensamento científico, do qual pode, porém, absorver os elementos, incorporando-os ao senso comum”.
Arte e raciocínio prático manifestam-se no design de um produto e no produto acabado. Um design não é só uma representação da estrutura de algo a ser criado como também um plano de ação para criá-lo. O produto final tem uma função prática, mas também é potencialmente uma obra de arte, porquanto é feita pelo homem, tem uma certa forma e um acabamento estético. Carros, computadores, telefones, são feitos não só para aliviar o homem de trabalho físico e mental mas também para agradar à vista. (v. Stanley Smith “ Arte, tecnologia e ciência: notas sobre sua interação histórica).
Referências:
KNELLER, George. A ciência como atividade humana. RJ: Zahar, 1980.
ARISTÓTELES. Metafísica I. Porto Alegre: Globo, 1969.
OBS. Esses livros podem ser encontrados na Biblioteca da PUC-Rio
(http://www.dbd.puc-rio.br)